Blog Academia B | Organizações Híbridas: um conceito para entender o que são as Empresas B?- Juliana Rodrigues e Graziella Comini, USP
436
post-template-default,single,single-post,postid-436,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode_grid_1300,hide_top_bar_on_mobile_header,qode-content-sidebar-responsive,qode-theme-ver-10.0,wpb-js-composer js-comp-ver-4.12,vc_responsive

Organizações Híbridas: um conceito para entender o que são as Empresas B?- Juliana Rodrigues e Graziella Comini, USP

Seja qual for o rótulo – capitalismo criativo, capitalismo filantrópico, nova economia, investimento de impacto, blended value, valor compartilhado – essas abordagens estão todas enraizadas na observação de que nenhuma reforma genuína pode acontecer enquanto as empresas voltadas para a maximização de lucros permanecerem como único motor de capitalismo. Governos e mercados devem reconhecer e apoiar empreendimentos voltados para benefícios [sociais] como um modelo igualmente legítimo (Sabeti, 2011, p. 8, tradução livre).

Repensar o modelo de negócios e redefinir o conceito de sucesso. Com esses objetivos arrojados, as Empresas B começam a despontar como uma alternativa para reafirmar um propósito mais amplo das empresas de realizar uma contribuição positiva para a sociedade. Muito mais do que trabalhar o conceito de responsabilidade social na periferia de atividades empresariais, cada vez mais a tendência é o exercício socioambiental se deslocar para o centro das decisões das organizações. Dessa forma, o movimento das Empresas B busca colocar ênfase no papel das empresas para os problemas atuais do mundo, sociais e ambientais.

Recentemente Gonzalo Muñoz, cofundador do SistemaB e CEO da TriCiclos, publicou um texto bastante esclarecedor sobre os diferentes pontos de vistas e mitos sobre o que são as Empresas B, no qual reforça que a proposta central das Empresas B é aprender a medir os resultados socioambientais empresariais com o mesmo rigor com o qual são medidos os resultados financeiros. O texto é bastante interessante porque buscar trazer uma visão clara do que são e quem são as Empresas B, processo cada vez mais importante para construir uma identidade forte e diferenciadora na medida em que o movimento cresce e ganha mais representatividade. Mas não é uma tarefa simples! Afinal, é um grupo bastante heterogêneo, não apenas em tamanho e em setores de atuação, mas também na forma como endereçam questões sociais e/ou ambientais, e quão central está a proposta social de valor no modelo de negócios.

No Brasil, o movimento foi rapidamente associado aos negócios de impacto social. Antes mesmo do lançamento oficial do movimento em outubro de 2013, sua inserção no mercado estava bastante conectada a figuras conhecidas do campo empreendedorismo social no País, levando a uma interpretação de que as Empresas B poderiam ser um sinônimo de um tipo ideal desse novo modelo de negócio. Exemplos emblemáticos de negócios de impacto social no Brasil, como a 4YOU2, Avante, Rede Asta, Programa Vivenda, entre outros, também são Empresas B certificadas, reforçando esse entendimento. Os negócios de impacto social se diferenciam dos negócios tradicionais por serem concebidos a partir da intencionalidade de resolver alguma questão social e/ou ambiental no centro da sua missão e das suas atividades. Pode ser ao fornecer um produto ou serviço que endereçam diretamente uma questão social, ou pela inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade na sua cadeia de valor.

O termo “organizações híbridas” vem ganhando cada vez mais espaço no cenário acadêmico para descrever esse novo tipo de negócio que também coloca no centro da razão de sua existência gerar valor socioambiental. São modelos de negócios cujo objetivo central é gerar impactos socioambientais concretos, mas também obedecem a lógica de mercado e abordagens tradicionais pró-lucro (1). O conceito surge dentro de um contexto da evolução do tema de responsabilidade social e sustentabilidade na busca pela inserção do valor social e ambiental na estratégia das organizações, sendo os negócios sociais um tipo ideal de organização híbrida. Embora ainda esteja em consolidação, chama a atenção ao ponto de sustentar a proposição, ainda que conceitual e sem arcabouço jurídico-legal, da existência de mais um setor na economia. Nomenclaturas como setor 2,5 ou quarto setor buscam denominar essas empresas híbridas como o intermédio entre as organizações lucrativas (segundo setor) e as organizações da sociedade civil (terceiro setor).

No entanto, com a certificação de empresas como a Natura, tanto pela representatividade do seu tamanho quanto pelo reconhecido posicionamento de sustentabilidade, foi possível notar que as Empresas B não se tratam apenas de negócios de impacto social, mas o composto de organizações que adotam práticas robustas de responsabilidade social, sustentabilidade e/ou valor compartilhado – conceitos correlatos, porém, diferentes. São empresas preocupadas com sua contribuição para a sociedade, com sua performance socioambiental e com a prestação de contas desses resultados. O que se nota, portanto, é que a certificação como Empresa B, mais do que indicar um tipo ideal de hibridismo organizacional, busca caminhar em um “movimento de hibridização” justamente por dar ênfase à performance socioambiental (2).

Mas será que existe apenas um tipo ideal de organização híbrida, ou seria um movimento de hibridização? Essa é uma questão ainda de bastante debate entre pesquisadores, acadêmicos e profissionais do campo, isto é, se há apenas um tipo ideal de hibridismo organizacional ou se é possível considerar diferentes graus de hibridismo e um processo de mudança. Essa é uma perspectiva importante, pois influencia como se avalia a possibilidade das empresas gerarem melhores resultados para o mundo e o potencial de transformação do próprio modelo econômico vigente. Em última instância, as organizações serão inevitavelmente híbridas em algum nível, pois, por conta de pressões comerciais, empresas passam a ter a necessidade de se envolver com movimentos sociais e de ganhar legitimidade nas relações com stakeholders. Por outro lado, muitas iniciativas com origem nas organizações da sociedade civil enfrentam o desafio de assegurar sua independência e sustentabilidade financeira, e passam a criar formas de gerar receita por meio de produtos e serviços.

O movimento de empresas B, ao propor uma avaliação sistemática e uma certificação concedida por um terceiro, busca conferir maior legitimidade e propor um avanço nos atuais mecanismos de monitoramento e prestação de contas, adotando a perspectiva de movimento de hibridização. Dessa forma, permite uma reflexão contínua sobre como criar impactos positivos gerados pelas empresas, seja como uma consequência das atividades, seja como uma intenção central na proposta de valor.

Alguém pode perguntar: “ok, mas por que entender essa classificação é importante? Afinal, que diferença isso faz”. As organizações híbridas estão desenvolvendo novas formas de se fazer negócios, consequentemente, apresentam novos desafios de gestão e de decisão. Como estão fora do escopo tradicional, as organizações híbridas levantam novas questões sobre governança, prestação de contas (accountability), controle, legitimidade, modelos e estratégias organizacionais, assim como desafios na forma como são reconhecidas e interpretadas pelos stakeholders e pela sociedade.

As organizações híbridas trazem novas perguntas que demandam novas respostas e soluções, não apenas uma adaptação do que se faz, ou se fez até hoje. Se normalmente nas empresas com fins lucrativos o resultado financeiro é um dos principais critérios de decisão, e se nas organizações tradicionais do Terceiro Setor o objetivo social é o “fiel da balança”, o que acontece quando os dois objetivos são concomitantes? A própria integração desses critérios de decisão e modelos de negócios e gestão é uma indicação de grau de hibridismo. Refletir sobre o que se trata é um dos passos para desenvolver novos caminhos de gestão e de negócios e, dessa forma, estimular a promoção de uma nova forma de se fazer negócios.

1- Para pesquisar mais sobre o conceito de “organizações híbridas”, algumas referências acadêmicas são: Julie Battillana (Harvard); Anne-Claire Pache (Essec Paris), Nardia Haigh (University of Massachusetts Boston), Filipe Santos (Católica Lisboa), entre outros.

2-Esse é um dos resultados da pesquisa desenvolvida como dissertação de mestrado sobre as Empresas B por Juliana Rodrigues, sob a orientação da Prof. Dra. Graziella Maria Comini na FEA/USP. Dissertação disponível em http://ns686619456.a2dns.com:8080/xmlui/handle/123456789/17 

Juliana Rodriguez e Graziella Comini

Sin comentarios

Publica un comentario